Além da gordura subcutânea: Diâmetro abdominal sagital vs. Gordura visceral

A avaliação da composição corporal é uma prática corriqueira e praticada por diversos profissionais da área de saúde (professores de Educação Física, Nutricionistas e Médicos), que de alguma forma utiliza essa avaliação para avaliar e acompanhar o efeito de suas intervenções. No entanto, além da quantificação relativa (percentual de gordura) da gordura corporal a identificação da sua distribuição também se faz necessário.

Já é sabido que o aumento da concentração de gordura na região do tronco esta intimamente relacionada a diversas complicações clínicas, tais como: Diabetes Mellitus, Resistência a Insulina, Dislipidemias, Hipertensão Arterial Sistêmica e Doenças cardiovasculares (Vasques e cols., 2009 e Vasques e cols., 2010). Dessa forma, é crescente o interesse na mensuração da distribuição da gordura corporal e da quantificação da adiposidade intra-abdominal (VASQUES e cols., 2010). O desenvolvimento de técnicas como a Tomografia Computadorizada (TC) e a Imagem de Ressonância Magnética (IRM) representou um dos avanços mais importantes na história da pesquisa de composição corporal em seres humanos, uma vez que ambas as técnicas permitem a mensuração acurada e precisa das gorduras visceral e subcutânea localizadas na região abdominal (Wajchenberg, 2000; Ross, 2003; Ross e cols.,1992; Stolke cols., 2001 e Erselcan cols., 2004). A TC é considerada padrão-ouro para a quantificação da gordura visceral, uma vez que possui elevada reprodutibilidade, com coeficientes de correlação elevada (r=0,99) para medidas duplicadas e também correlação forte à real quantidade de gordura mensurada em cadáveres (Thaete e cols., 1995).

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No entanto, muitas vezes, em razão do alto custo de seus equipamentos, da sofisticação metodológica e das dificuldades em envolver os avaliados nos protocolos de medida, sua utilização em estudos populacionais bem como diagnósticos clínicos tem sido limitada (Haun, Pitanga e Lessa, 2009). Sendo assim, devido à simplicidade e especificidade dos métodos antropométricos (IMC, IAC, RCQ, circunferência abdominal e da cintura) estes se apresentam como bons instrumentos para estimar a gordura corporal e sua área de concentração, além disso, apresentam uma boa correlação com fatores de risco cardiovasculares.

Diâmetro abdominal sagital

              O diâmetro abdominal sagital (DAS) é uma media menos conhecida, no entanto, mais uma alternativa para estimar a quantidade degordura visceral. O DAS representa a altura abdominal, compreendendo a distância entre as costas e o abdômen (Williamson  et al., 1993). Esta medida pode ser feita com o indivíduo de pé (Iribarren et al., 2006) ou na posição supina, sendo esta última a mais utilizada (Riserus  et al., 2004).

O local anatômico utilizado para a aferição do DAS diverge entre os estudos, sendo assim, os autores sugerem a utilização da menor cintura entre o tórax e o quadril, a maior altura abdominal, a cicatriz umbilical, o ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca e/ou o ponto médio entre as cristas ilíacas (Figura 1).

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Figura 1. Aferição do diâmetro abdominal sagital na posição supina (Fonte: Vasques e cols, 2010).

O Ponto médio entre as cristas ilíacas coincide com a localização das vértebras lombares L4 e L5, o local mais utilizado pelas técnicas de imagem para quantificação da área de tecido adiposo visceral e, talvez, o mais indicado para a aferição do DAS (Kahn, 2003). Geralmente esta mediada é realizada com um compasso específico (Figura 2.) que faz uma leitura direta da distância entre as costas do sujeito e a frente do abdômen do sujeito.

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Figura 2. Holtain-Kahn Abdominal Caliper Extra Long 50 cm

O DAS tem sido recomendado como indicador de deposição de gordura abdominal visceral e de avaliação do risco cardiovascular (Petersson et al., 2007; Seidell et al., 2001). Sampaio et al., (2007), propuseram um ponto de corte para a avaliação do DAS em brasileiros baseados em uma quantidade de gordura abdominal visceral elevada (superior a 100 cm²). Os pontos de corte definidos para sujeitos do sexo feminino e masculino foram de 19,3 e 20,5 cm, respectivamente (Sampaio et al., 2007).

 Estimativa da Gordura Visceral

Em 1947, o médico francês Jean Vague foi o pioneiro em descrever que a concentração de gordura na região abdominal estava relacionada aos danos decorrentes da obesidade (Vague, 1947). O ponto de corte da área de gordura visceral ≥ 130 cm² é o considerado pela maioria dos estudos como excesso de tecido adiposo visceral e de risco para desenvolvimento de alterações metabólicas, doenças cardiovasculares e outras morbidades (Despres e Lamarche, 1993; Hunter et al., 1994).

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Para a avaliação clínica e para a pesquisa epidemiológica, a estimativa da distribuição regional de gordura, geralmente necessita ser realizada por um método rápido, fácil e econômico (VASQUES e cols., 2010). Neste sentido, as técnicas antropométricas acabam se tornando uma alternativa de grande valia e além destas, alguns pesquisadores desenvolveram equações de regressão para estimar a quantidade de gordura visceral.

 

Brundavani, Murthy and Kurpad (2006)

Homens: TAV (cm²) = -400,5 + [6,43 (CC)]

Mulheres: TAV (cm²) = -275 + [4,59 (CC)]

Onde: CC = Circunferência da cintura em cm

Després e cols., 1991.

1ª equação

Homens: TAV (cm²) = -274,056 + [1,562 (Idade em anos)] + [160,662 (RCQ)] + [8,358 (DAS)]

2ª equação

Homens: TAV (cm²) = -225,39 + [2,125 (Idade em anos)] + [2,843 (CC)]

Onde: RCQ = Relação cintura e quadril; DAS = DAS: diâmetro abdominal sagital; CC = Circunferência da cintura em cm

Conclusão:

Evidentemente que as técnicas consideradas padrão ouro são as mais precisas e se possível devem ser utilizadas preferencialmente. No entanto, grande parte dos profissionais da área da saúde não terá acesso a estes procedimentos e equipamentos. Dessa forma, as técnicas indiretas e as estimativas por equações se tornam alternativas de grande valia para a mensuração da gordura visceral, como também para o acompanhamento dos efeitos de intervenções (exercício e dieta).

Referências

Brundavani V, Murthy SR, Kurpad AV. Estimation of deep-abdominal-adipose-tissue (DAAT) accumulation from simple anthropometric measurements in Indian men and women. Eur J Clin Nutr. 2006; 60(5):658-66.

Despres JP, Lamarche B. Effects of diet and physical activity on adiposity and body fat distribution: implications for the prevention of cardiovascular disease. Nutr Res Rev. 1993; 6 (1): 137-59.

Després JP, Prud’homme D, Pouliot MC, Tremblay A, Bouchard C. Estimation of deep abdominal adipose-tissue accumulation from simple anthropometric measurements in men. Am J Clin Nutr. 1991; 54(3):471-7

Hunter GR, Snyder SW, Kekes-Szabo T, Nicholson C, Berland L. Intraabdominal adipose tissue values associated with risk of possessing elevated blood lipids and blood pressure. Obes Res. 1994; 2 (6): 563-8.

Iribarren C, Darbinian JA, Lo JC, Fireman BH, Go AS. Value of the sagittal abdominal diameter in coronary heart disease risk assessment: cohort study in a large, multiethnic population. Am J Epidemiol. 2006; 164 (12): 1150-9.

Kahn HS. Alternative anthropometric measures of risk: possible improvements on the waist-hip ratio. In: Medeiros-Neto G, Halpern A, Bouchard C. (eds.). Progress in obesity research. 9th ed. London: John Libbey Eurotext Ltd; 2003 .p. 639-43.

Petersson H, Daryani A, Riserus U. Sagittal abdominal diameter as a marker of inflammation and insulin resistance among immigrant women from the Middle East and native Swedish women: a cross-sectional study. Cardiovasc Diabetol. 2007; 6: 10.

Riserus U, Arnlov J, Brismar K, Zethelius B, Berglund L, Vessby B. Sagittal abdominal diameter is a strong anthropometric marker of insulin resistance and hyperproinsulinemia in obese men. Diabetes Care. 2004; 27 (8): 2041-6

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Sampaio LR, Simoes EJ, Assis AM, Ramos LR. Validade e confiabilidade do diâmetro abdominal sagital enquanto preditor de gordura abdominal visceral. Arq Bras Endocrinol Metab. 2007; 51 (6): 980-6.

Seidell JC, Perusse L, Despres JP, Bouchard C. Waist and hip circumferences have independent and opposite effects on cardiovascular disease risk factors: the Quebec Family Study. Am J Clin Nutr. 2001; 74 (3): 315-21.

Thaete FL, Colberg SR, Burke T, Kelley DE. Reproducibility of computed tomography measurement of visceral adipose tissue area. Int J Obes Relat Metab Disord. 1995; 19(7):464-7.

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VASQUES, A.C.J; PRIORE,S.E; ROSADO, E.F.P.L; FRANCESCHINI, S.C.C. Utilização de medidas antropométricas para a avaliação do acúmulo
de gordura visceral. Rev. Nutr., Campinas, 23(1):107-118, jan./fev., 2010.

Wajchenberg BL. Subcutaneous and visceral adipose tissue: their relation to the metabolic syndrome. Endocr Rev. 2000; 21(6):697-738.

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