O paradoxo entre arquitetura muscular e a produção de potência

A prática do treinamento resistido (musculação), como também o número de profissionais atuando nessa área vêm crescendo substancialmente a cada ano. Em parte, isso esta relacionada às diversas formas de se realizar o treinamento de força (musculação, treinamento funcional, pilates, LPO, cross fit, entre outros), como também aos resultados expressivos dessa prática, seja, no ponto de vista funcional ou estético.

Com relação à funcionalidade para o desempenho esportivo, existe uma linha tênue que separa o sucesso do fracasso! Diversos atletas buscam no treinamento de força uma forma de melhorarem seus desempenhos, haja visto, que grande parte dos esportes são dependentes de alta produção de força e potência. No entanto, o erro, na organização dos componentes da carga de treino (séries, carga, intervalo, exercícios e periodização), podem levar o atleta a desenvolver excessivamente a massa muscular (hipertrofia muscular) e não necessariamente, estes ganhos estariam relacionados a um melhor de desempenho (força e potência). Ou seja, estariam desenvolvendo uma hipertrofia não funcional!

Diante de um programa sistematizado de treinamento de força, nosso organismo sofre adaptações funcionais e morfológicas e que poderiam estar relacionados à melhora da capacidade de produzir força e potência muscular. Do ponto de vista morfológico, as questões funcionais da arquitetura muscular têm sido amplamente estudadas, parecendo existir uma especialização dos músculos à função que desempenham. De maneira geral, músculos com ângulos de penação (AP) maiores e/ou com fascículos (conjunto de fibras) com menor comprimento, parecem mais adequados para a produção de elevados níveis de força. Já músculos com AP de menores dimensões e/ou fascículos mais compridos estão funcionalmente mais aptos a produzirem força em alta velocidade (potência).

Analisando a arquitetura muscular, podemos notar a existência de dois tipos básicos de disposições para as fibras musculares, estas classificadas em fusiforme (fibras se organizam em paralelo ao eixo longitudinal do músculo, ex. bíceps braquial) e penada ou peniforme (unipenado, bipenados ou multipenados), neste caso as fibras musculares estão localizadas em um ângulo de separação (inclinação ou dispersão), como por exemplo, o músculo quadríceps. A seguir a figura 1 apresenta a disposição e classificações das fibras musculares.

Figura 1. Disposição das fibras musculares e suas classificações.

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Nos músculos fusiformes as fibras musculares correm paralelamente à linha de ação muscular, ligando o tendão proximal ao distal. Já nos músculos peniforme, as fibras estão dispostas obliquamente à linha de ação e se inserem na aponeurose interna. Dessa forma, as unidades geradoras de força são orientadas em um ângulo com a linha de tração do tendão muscular, isto é, nos músculos peniformes elas não ficam completamente em séries com a direção do vetor da força muscular, mas se inserem em bainhas de tecido conjuntivo (aponeurose) intramuscular em ângulos (Figura 2). Consequentemente o comprimento da fibra se torna menor que o comprimento do músculo, haja visto, que as fibras não atravessam o músculo de uma ponta a outra, prejudicando assim sua velocidade de contração. Entretanto, a penação possibilita um maior número de sarcômeros em paralelo para um determinado volume muscular, ou seja, os músculos penados apresentam maior área de secção transversa fisiológica (ASTF) e consequentemente maior capacidade de produção de força.

Figura 2. Imagem ultrassônica do músculo gastrocnêmico e seu ângulo de penação.

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Os valores do AP variam de acordo com o grupamento muscular e população, sendo relatados valores de até 30°, podendo ser maiores dependendo do estado em que a musculatura se encontra (repouso ou contração). Por exemplo, para um AP de 30°, haveria uma transmissão de aproximadamente 87% da força produzida pelas proteínas contrateis para seu tendão (força no tendão = força muscular X Coseno 30° = 0, 87, ou seja, perda de apenas 13% na capacidade de gerar força).

O AP está diretamente relacionado com a quantidade de tecido contrátil por unidade de área muscular (ASTF) e, juntamente com o comprimento da fibra, tem influência direta sobre as propriedades mecânicas como a capacidade de produção de força e velocidade de encurtamento muscular. A perda de eficiência da capacidade de geração força/potência em músculos penados está associada ao fato de sua linha de ação não corresponder à direção de deslocamento do músculo e, portanto, ocorre redução do componente efetivo da força (cosseno do AP), o que até certo ponto é compensado pela maior quantidade de material contrátil disposto em paralelo.

Sendo assim, o aumento da potência muscular vem acompanhado da hipertrofia muscular, até certo ponto! Em um determinado momento a hipertrofia muscular (aumento do número de sarcômeros em paralelo) vem acompanhada de um aumento ineficiente do AP dificultando assim, transferência efetiva da força muscular para o tendão, acometendo, a capacidade do músculo se encurtar com velocidade (Potência).

Dessa forma, os sujeitos envolvidos com a prescrição do treinamento resistido para os esportes dependentes de força e potência, deveriam ficar atentos para que a organização dos componentes de carga (séries, intervalos, tipos de exercícios, periodização, etc…) do treino, não promova efeitos indesejados na manifestação da força e potência de seus atletas.

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